fbpx
*Douglas Ferreira

É um fato notório que os incêndios que atormentam a Austrália desde setembro de 2019 estão entre os piores da história. Fato: apenas ligue a televisão ou assista a qualquer noticiário para ser impactado pelas fotos apocalípticas e preocupantes e trágicos danos ambientais, sociais e econômicos. Neste artigo, resumirei os atuais números desse desastre de escala catastrófica e como a geração de energia está indiretamente relacionada ao problema. Para uma melhor compreensão, este texto abordará os seguintes aspectos: 1. A proporção, extensão e impacto dos incêndios; 2. Realmente, como a geração de energia afeta as mudanças climáticas; 3. É tudo sobre política?; e 4. O momento do a-ha: como a inovação no setor de energia ajudará na redução de queimadas e seus efeitos.

1. A proporção, extensão e impacto dos incêndios

Primeiramente, e mais importante para contextualizar essa situação desastrosa, é preciso encarar as consequências e os números da destruição. Desde setembro do ano passado, os incêndios deixaram pelo menos 27 mortos e dezenas de desaparecidos. Mais de 100.000 km² foram consumidos pelo fogo. A título de exemplificação, em Nova Gales do Sul mais de 4 milhões de hectares foram queimados (para melhor compreensão, um hectare é do tamanho de um campo de futebol). Ainda, um bilhão de animais dizimados, 2.000 casas destruídas, dezenas de milhares de pessoas foram forçadas a deixar suas cidades e 370 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO²) foram emitidas para a atmosfera.

No total, os incêndios estão queimando na Austrália por mais de 120 dias. Para demonstrar e comparar a gravidade da situação, até agora as queimadas na Austrália queimaram 5 vezes mais que os incêndios na Amazônia, no Brasil, e 2,5 vezes mais que os incêndios na Califórnia, nos EUA.

Como consequência das queimadas, Sydney e outras cidades foram tomadas por uma densa fumaça e famosos pontos turísticos da Austrália, como a Opera House e a Harbour Bridge, ficaram pouco visíveis. A fumaça chegou até a capital da Austrália, Canberra, colocando-a em primeiro lugar nas classificações de poluição e baixa qualidade de ar.

É fato que as queimadas sempre ocorreram na Austrália e podem ser consideradas como um fenômeno natural, mas a intensidade e a frequência dos incêndios estão aumentando e começando mais cedo do que nunca.

A gravidade das queimadas neste ano é explicada por três fatores principais: vegetação seca, temperaturas muito altas e ventos fortes. Aqui na Austrália, as temperaturas costumam atingir mais de 35ºC no verão, mas temperaturas extremas acima de 40ºC estão se tornando mais comuns nos últimos anos. De acordo com o Conselho Climático Australiano (Australian Climate Council), as capitais da Austrália estão passando por ondas de calor mais quentes, longas e mais frequentes, que exercem uma grande influência nas queimadas, uma vez que criam condições perfeitas para começar um incêndio.

Existem vários estudos que confirmam que a temperatura média global está mudando. O objetivo não é aprofundar sobre o tema mudanças climáticas[1], mas explicar e esclarecer que existe uma relação direta entre queimadas, ondas de calor, mudanças climáticas e, por último, mas não menos importante, emissão de gases de efeito estufa, que chamarei de "emissão de carbono" para um melhor entendimento. Agora vamos falar sobre como energia tem algo a ver com isso.

2. Realmente, como a geração de energia afeta as mudanças climáticas

Inicialmente, é importante entender como a energia é gerada. A maneira mais comum de gerar energia é girando uma turbina, e existem várias fontes de energia que podem ser usadas para isso. Muitos países que não podem contar com a natureza dos rios usam vapor para girar turbinas. A maneira mais comum de produzir vapor é aquecer água queimando carvão ou outros combustíveis fósseis menos poluentes, como o gás natural. Essas são chamadas Usinas Termelétricas e usam combustíveis provenientes do carvão, gás natural e outras fontes primárias. Também é possível usar reações nucleares controladas para transformar água em vapor, ou a energia limpa do vento para fazer uma turbina girar, ou até mesmo gerar energia do sol.

O principal problema é que, devido à natureza abundante e barata do carvão, a maioria dos países foram dependentes, por muitos anos, de usinas a carvão para gerar energia. Ele é o maior contribuinte das mudanças climáticas. Sua queima é responsável por 46% das emissões de dióxido de carbono em todo o mundo.

O que tudo isso tem a ver com as queimadas na Austrália? Surpreendentes 60% da matriz energética australiana ainda depende de usinas a carvão. Se adicionarmos gás natural, que é menos poluente, mas ainda assim produz muitas emissões de carbono, esse número aumenta para 80% da matriz energética total.

Por um lado, temos uma matriz energética majoritariamente impulsionada por combustíveis fósseis e emissões de carbono contribuindo para as secas. Por outro lado, linhas de transmissão antigas – postes e cabos de transmissão ou distribuição - também apresentam um risco significativo, uma vez que quando derrubados podem gerar faíscas e iniciar fogos em áreas de vegetação seca. Uma linha pode ser derrubada por vários motivos, incluindo ventos fortes, colisão de veículos e, pior ainda, más condições de manutenção.

A ideia deste artigo é mostrar a importância da inovação, especialmente em um cenário catastrófico. A matriz energética precisa de um equilíbrio entre três pilares principais: confiabilidade, sustentabilidade e acessibilidade. As energias renováveis, como a solar e a eólica, são sustentáveis ​​e estão se tornando cada dia mais acessíveis. O contraponto levantado por algumas empresas é que essas energias alternativas não eram confiáveis ​​devido à falta de capacidade de armazenamento para lidar com sua intermitência natural. Agora isso está mudando com novas e inovadoras formas de armazenamento! E é aí que o trabalho de energy intelligence da Fohat se destaca. Mas primeiro, deixe-me explicar brevemente como funciona o armazenamento de energia.

As baterias estão se tornando cada vez mais baratas e os preços continuarão caindo, principalmente pela adoção de veículos elétricos (do inglês, electric vehicle - EV), mas também pela adoção de baterias de grande escala. Vários estados da Austrália têm suas próprias políticas para incentivar as pessoas e comércios a instalarem painéis solares fotovoltaicos (do inglês, photovoltaic panel - PV) e baterias domésticas através do auxílio de subsídios do governo estadual. No sul da Austrália, uma ambiciosa parceria e projeto entre Elon Musk, Tesla e o governo criou a maior bateria do mundo. A instalação da bateria é conectada a um parque eólico e a uma rede maior, e serve como reservatório de eletricidade em momentos que a demanda de energia atinge o pico ou o vento não esteja soprando.

3. É tudo sobre política?

Assim como em qualquer outro país, o poder político encarregado tem uma grande influência na interação entre questões energéticas, ambientais e econômicas. Não seria diferente neste caso. O primeiro-ministro recém-eleito da Austrália, Scott Morrison, do Partido Liberal, enfrentou algumas críticas entre os grupos de energia limpa, principalmente devido a erros e atrasos no combate aos incêndios florestais e à falta de comprometimento com a crise climática. Portanto, não é surpresa que a maioria da população australiana esteja pedindo uma transição imediata de combustíveis fósseis para energias renováveis, tópicos que não eram originalmente uma prioridade para o Sr. Morrison.

4. O momento do a-ha: como a inovação no setor de energia ajudará na redução de queimadas e seus efeitos

Existem algumas companhias em todo o mundo trabalhando em soluções para promover os 3Ds do setor de energia: digitalização, descentralização e descarbonização.

Para um melhor entendimento, a descarbonização é a peça que sustentará uma matriz energética mais limpa, permitindo uma adoção mais rápida de recursos renováveis ​​sem carbono, como a energia solar e a eólica.

Ainda, descentralização [3] significa permitir que pessoas e empresas que produzem sua própria energia, por meio de PVs, ou que possuam aparelhos inteligentes como baterias, EVs ou ar-condicionado (AC) inteligente, colaborem e sejam premiadas por contribuir com a rede elétrica. Esses são chamados de Recursos Energéticos Distribuídos (do inglês, Distributed Energy Resources - DERs).

Por fim, digitalização significa processar todas as informações geradas em tempo real por medidores inteligentes e outros dispositivos inteligentes conectados à rede. Na Fohat, desenvolvemos soluções de energy intelligence para resolver problemas no setor de energia. Atualmente, existem duas principais plataformas de software em desenvolvimento. A primeira é um sistema de gerenciamento de recursos energéticos distribuídos (do inglês, Distributed Energy Resources Management System - DERMS) ou também conhecido como controlador de microrredes. Em palavras mais simples, é o software que gerencia a inteligência para controlar painéis solares e baterias, ou qualquer outro DER mencionado, para agregá-los e conectá-los ao operador do sistema, para que eles juntos possam se comportar como uma usina, também conhecida como usina virtual (do inglês, Virtual Power Plant - VPP). A segunda plataforma é um mercado de energia digital. Esse software permitirá que pessoas e empresas comercializem energia entre si, viabilizando ainda que sejam pagas adequadamente pela energia que geram em seus painéis fotovoltaicos ou até mesmo comprando energia a um preço mais barato. Ao fazer isso, as pessoas e empresas terão retornos melhores de seus investimentos em DERs, permitindo uma adoção mais rápida de recursos renováveis ​​e diminuindo a dependência em combustíveis fósseis. É um processo passo a passo para nos desapegarmos cada vez mais da geração de energia poluidora.

Para contextualizar a importância das microrredes nesse cenário das queimadas, vou descrever brevemente um cenário hipotético para melhor compreensão. Primeiro, é um fato bem conhecido que a maior parte das queimadas ocorrem em áreas rurais ou subúrbios, onde a incidência de arbustos e outras vegetações é maior. Postes e cabos - que incluem grandes torres (linhas de transmissão de alta tensão) e postes menores (linhas de distribuição de média e baixa tensão) - geralmente cruzam essas áreas para trazer energia a todos e são desenergizados para evitar que o risco de sua infraestrutura cause mais incêndios. Boa ideia? Não muito, já que esse método de desenergização tem consequências óbvias e calamitosas. Com a falta de energia, uma cidade não possui refrigeração, semáforos, bombas de gasolina, torres de celular etc.

Por prevenção e para se tornar independente da rede em tempos como esses, muitas pessoas têm seus próprios geradores a diesel de reserva em casa para manter os equipamentos essenciais funcionando. Mas espere, lembra que, sem energia, sem bombas de gasolina? É isso mesmo, esses geradores a diesel não vão funcionar por muito tempo sem energia. Isso explica sua capacidade limitada. Então, se um gerador a diesel de reserva não puder gerar energia se você ficar sem reserva de diesel, qual é a solução? Microrredes!

Se você possui sua própria microrrede ou até sua vizinhança possui uma microrrede compartilhada, você resolve o problema. Uma microrrede é a combinação de três elementos: geração de energia, armazenamento e software. Uma microrrede tem a capacidade de trabalhar no modo ilhado, o que significa que pode funcionar independentemente da rede principal de fornecimento de energia. Painéis solares e armazenamento por bateria (ou outros dispositivos de geração e armazenamento) são instalados para gerar e armazenar sua própria energia localmente, então quando a rede principal não estiver disponível – durante um incêndio, por exemplo, as pessoas ainda terão acesso a partir de seus próprios recursos.

E se acabar o combustível?

O problema é resolvido quando você gera sua própria energia. Se o sol está brilhando, a energia está disponível. E se houver muita fumaça ou longos dias nublados? Não se preocupe. É por isso que a inteligência do software é uma parte essencial da microrrede. Na Fohat, estamos desenvolvendo um sistema que utilizará tecnologia de ponta como big data e inteligência artificial para analisar previsões e dados meteorológicos para garantir que a energia em sua microrrede seja gerenciada e otimizada para durar o quanto você precisar. Acreditamos no movimento de democratizar o acesso das pessoas a bens de consumo e fazer um uso mais equilibrado dos recursos naturais. Para tornar isso possível, o processo deve passar por simplificação e inovação na geração e uso de energia, nosso principal foco e objetivo.

Espero que este artigo tenha auxiliado no entendimento do problema.

Para aqueles que ainda estão em dúvida sobre como a Fohat está contribuindo para um setor de energia mais renovável e descentralizado, convido você a visitar nosso website www.fohat.co ou mesmo um de nossos escritórios na Austrália e/ou no Brasil para um café. Você será muito bem-vindo!

*Douglas Ferreira, Head de Desenvolvimento Global e Co-fundador.

[1] Caso queira se aprofundar no tema mudanças climáticas, recomendo a leitura deste relatório do Conselho Climático Australiano (Australian Climate Council).

[2] Se isso lhe parece improvável, vale lembrar que o episódio conhecido como Incêndio do Sábado Negro, que resultou em 173 mortes e queimou 450.000 hectares de terra, em 2009, foi causado pelo envelhecimento da linha de transmissão que caiu sob ventos fortes perto de uma plantação de pinheiros, de acordo com a Comissão Real de Queimadas em Victoria (Victorian Bushfires Royal Commission).

[3] Historicamente, a geração de energia sempre foi um processo centralizado, sendo gerada em grandes usinas, comumente localizadas longe das cidades ou centros de consumo.

Douglas Ferreira

Author Douglas Ferreira

A atuação no exterior e a abertura de mercado global da Fohat está sob o comando do co-fundador e engenheiro eletrônico industrial Douglas Ferreira, 32 anos, que já atuou como engenheiro no Brasil e na Alemanha em multinacionais como Bosch e Volvo. Sediado no escritório da companhia em Melbourne, Austrália, desde 2018, é ele quem atua como gestor do inovador projeto de viabilidade de uma microgrid na renovação do Queen Victoria Market, mercado municipal da cidade de Melbourne, segunda maior cidade australiana, com mais de 4 milhões de habitantes.

More posts by Douglas Ferreira

Join the discussion One Comment

  • Sergio Antonio Gregol disse:

    Parabens. Expetacular trabalho que esclarece e que dá outras alternativas de geração e otimização de energia. Bastante esclarecedor.

Comente!

pt_BRPT
en_USEN pt_BRPT